Saturação dos géneros ◄ Voltar

"           No final do século passado, sob a designação, talvez apressada e demasiado geral, de pensamento “pós – moderno”, várias afirmações foram produzidas sobre a necessidade de encarar, de um modo diferente, o carácter dos discursos culturais que a época produzia. Um dos caminhos pelo qual essa crítica procedeu partia da constatação que os diversos géneros do discurso teórico e artístico tinham chegado a uma espécie de saturação ou exaustão. Que estes já não poderiam ansiar a uma legitimação absoluta, interna ou externa, nem tão pouco partir de pretensos pontos de partida que se afirmavam mais verdadeiros ou puros. Esta ideia teve consequências enormes nos diversos modos de encarar a produção artística e o discurso sobre a arte. Produção e discurso que, a partir desse momento, aparecem cada vez mais ligados e co-dependentes.

            As fronteiras entre os géneros tradicionais da pintura, como por exemplo, o retrato, a natureza morta, a paisagem, a pintura abstracta, tiveram tendência para se diluir, mas, mais importante ainda, procuraram olhar para dentro de si próprios e da sua história de uma forma que agora se torna muito mais evidente, embora pudéssemos encontrar  a origem desta atitude em experiência de épocas anteriores. Por exemplo, se pegarmos num género clássico da pintura como a natureza morta, que perante estes quadros de Victor Almeida verificamos ser, aqui, a referência do autor, constatamos que a natureza morta já não se liga apenas à representação material dos objectos, nem tão pouco apenas serve de ponto de ancoragem para a descoberta da essencialidade da matéria ou da originalidade de uma visão, mas que terá de lidar com uma pensada apreensão da própria história do género, tentando ultrapassar a sua “saturação” pela possibilidade de todas as misturas e apropriações que esse olhar retrospectivo lhe apresenta. A busca da pureza ou da originalidade de uma visão despreconceituosa é agora substituída pela originalidade dos encontros improváveis, e dos sabores das novas misturas as quais, no âmbito de outro tipo de pensamento, seriam implausíveis ou impossíveis de ser colocadas. Há sempre o risco de chocar ou o nosso gosto constituído ou as nossas tentativas de justificação. Mas, apesar desses riscos, esta nova situação na arte criou caminhos e possibilidades que muitos artistas não hesitaram em percorrer.

            Victor Almeida opera aqui, no meu entender, um movimento que poderíamos classificar como anti-decorativo, ao transportar para o centro de interesse, para a parte “ainda” viva da natureza morta, um recurso tradicionalmente reservado para o que está “à volta”, para a decoração do cenário ou para o enriquecimento de atributos do motivo principal: o dourado, a folha de ouro. É este movimento implausível que constitui o esqueleto da apreensão sensível dos quadros, é por aí que eles imediatamente nos atingem. É esta não-decoração que coloca o espectador, principalmente aqueles que reconhecem as referências, ( Matisse, Klimt, a pintura pré-renascentista), perante a estranha sensação “do não ser assim” que é o risco e um dos interesses das pinturas e desenhos aqui apresentados.

           

 

João Queiroz

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017