Sob a Luz de Outro Sol ◄ Voltar

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(...) Francisco Laranjo executou a maior parte dos trabalhos aqui apresentados na Alemanha, ou depois de uma visita que ali fez, entre muitas, às galerias onde se conserva a grande arte do Romantismo alemão. Pintor do estudo da pintura, incansável contemplador do seu mistério, Laranjo aí foi apreender espaços, cores, pequenos gestos. E de Caspar Friederich terá aprendido as transparências fluidas, quase aquáticas, como de outros aquela forma que a obscuridade vai tomando, ao adensar-se numa noite mais profunda do que a própria noite, porque é antes das noites do espírito que esses pintores quiseram comunicar o senso. E o que regista são apontamentos breves, delicados, quase fugidios, inaugurando na sua própria, uma nova percepção do que é a pintura. Ao gesto largo, quase japonês, intenso de uma vibração aproximada, do seu trabalho de antes, vem agora juntar o pintor uma outra percepção do espaço, mais voltada sobre a profundidade do que sobre a superfície, como se quisesse reinventar espaço onde o não há, esquecer-se de que sabe que a pintura não representa, e voltar-se sobre um espaço ilusório para o habitar já não de figuras mas de apontamentos delas. Como pétalas, às vezes, de outras vezes como singelas flores de assombração, de outras ainda como registos de olhares ou sentimentos, os seus carvões ou os seus óleos, mais líquidos que nunca, perseguem a vertiginosa fuga do espaço para um ponto infinito de onde se contempla o vazio tal como ao vazio contemplavam, do limite de uma ravina rente à aurora, essas bravas personagens de Friederich, costas dadas ao mundo. Não porque Laranjo seja um nostálgico, mas porque na sua descoberta do acto fundo de pintar se apercebe de como a nostalgia nele também reside, ao menos como memória inscrita nessa pátria vasta que outros, antes dele, percorreram. Faz-se então obscuro o seu espaço, mesmo se transparente, capaz de ir acolher os sóis e as luas da pintura. Fazem-se então sombrias certas partes. Fazem-se então de uma espacialidade dourada e surpreendente outros espaços, ou de verdes de líquenes as águas de memória obscura que ele apercebe naqueles mestres, tocando-o também a ele esse sentido do mistério e do obscuro, que ali se fez elegíaco, de um saber nocturno essencial. E desse saber de névoas e de treva parte o pintor para a descoberta de outras luzes que a sua pintura não conhecera antes, libertando-a para um gesto mais fluente, mais livre, mais solto no espaço e no tempo de percepção das matérias da pintura. Pequenas figuras como nós, ou quais novelos, procuram suspender-se desse espaço, sugerindo um haver nós imperceptíveis que tangem por dentro a natureza. São como figuras do espírito, abstractas, que contemplam a compreensão de um mundo ainda, e para sempre, por haver, porque é pátria do espírito antes de o ser do tempo. E o seu tempo e espaço são fisicamente imateriais. Nesse sentido, esta observação do inaudito e do profundo deu ao nosso pintor a compreensão de um fulgor e de uma profundidade que, antes, a sua pintura não podia ter conhecido, porque se centrava ainda sobre outro tipo de questões. E sendo Francisco Laranjo um pintor da pintura, isto é, alguém que se quer confrontar com aquilo que de mais específico a pintura tem, como forma de aprendizagem mais do que como aprendizagem da forma, inescapavelmente ele teria que aproximar esse domínio obscuro do Romantismo alemão, onde uma outra percepção do espaço-tempo se entendeu, na vasta procura da pintura ocidental, quanto aos seus meios de comunicar certos aspectos da vida do espírito. E o que parecem flores, ou novelos suspensos do espaço, ou às vezes silhuetas de máscaras medievais, sendo-o também — porque na pintura tudo o que lá vemos passa a estar lá, sendo essa a sua verdade mais profunda — participam sobretudo de um entendimento dessas formas que o pensamento tem de se envolver em si mesmo, de se debruçar sobre si mesmo, para afrontar espaços que antes não soubera, ou pudera, acercar. Gestos, então, de puro acercamento são estes, semelhantes daqueles que movemos quando aproximámos um mistério, ou balbuciámos um novo entendimento de uma coisa que, antes, não havíamos chegado a compreender na sua totalidade. O trabalho de Francisco Laranjo ganha, deste modo, uma nova incidência, ou uma nova consciência, na medida em que se envolve com uma maior dificuldade do que aquela que até aqui tinha encontrado. Dessa espacialidade muda em que antes procurava o cerne do seu trabalho, sem a perder passou para uma dimensão mais longínqua, diria quase mais espiritual, dessa procura, o que o conduziu a gestos que já se identificam como prévios a qualquer forma designada. (...)

Bernardo Pinto de Almeida

Excerto do texto publicado em catálogo "Under Different Skies", Junho 2003

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017