Um calendário lunar com 15.000 anos ◄ Voltar

Parece-me que aquele que poderá ser o mais antigo calendário lunar alguma vez criado foi recentemente encontrado nas paredes da famosa gruta pré-histórica de Lascaux. Esta descoberta, realizada pelo professor Michael Rappenglueck da Universidade de Munique, vem agora dizer que no intervalo das pinturas se podem observar várias representações da lua e de outros corpos celestes. Este interesse arqueológico por “registos astronómicos” do neolítico não é de agora. Lembro-me que nos anos 70, na África do Sul, foi descoberto um osso datado mais ou menos do mesmo período; este apresentava uma sequência de pequenas incisões que faziam lembrar o percurso da lua nas suas diferentes fases. Nunca ficou claramente demonstrado que de facto se tratava da lua. Cada incisão era minúscula e a sequência não era suficientemente caracterizada para chegar a uma tal conclusão. De qualquer maneira, desde essa altura que a hipótese de um documento “científico” ancestral passou a ser uma questão arqueológica de maior relevo para a comunidade científica e, em particular para mim, sobretudo na sua relação com a lua, já que há bastante tempo recolho material para uma publicação sobre a história da lua.

A partir do momento em que soube da alegada interpretação de Rappenglueck, tentei imediatamente entrar em contacto com a Universidade de Munique para poder confrontar as ideias do professor com a minha própria pesquisa.

Com a permissão especial das autoridades francesas, fui visitar as grutas com o professor Rappenglueck. Trata-se de uma oportunidade que a maior parte das pessoas nunca terá, uma vez que para protecção do local histórico, foi construída uma réplica ao lado, a chamada Lascaux II, essa sim, normalmente visitada por turistas e totalmente falsa.

“O segredo para entender estas grutas”, dizia Rappenglueck enquanto descíamos na escuridão, “é perceber as pessoas que as pintaram. É quase certo que os símbolos que vamos ver representam o céu, mas não de uma forma sistemática. O homem primitivo não tentava representar a totalidade da cúpula celeste, apenas as partes que lhes eram particularmente importantes. Essa é também a razão pela qual a evidência destas inscrições passou tão despercebida aos outros investigadores. Como vai poder confirmar, as marcas na parede só indicam fragmentos do céu. Aqui e ali, vamos ver espalhadas constelações que se misturam com as figuras muito mais realistas dos animais.”

Com os olhos a habituarem-se à falta de luz entrei na Câmara dos Touros e aí permaneci deslumbrado. Quem quer que tenha visto estas pinturas fica com a certeza que está perante uma das mais importantes obras de arte alguma vez criadas.

Enquanto observava com espanto o naturalismo das figuras e imaginava o homem primitivo, o mágico e o caçador, Rappenglueck seguia ansioso à minha frente.

“Venha por aqui. Siga-me...é mais à frente. Eis a primeira coisa que lhe queria mostrar”, e aproximava-se de uma passagem apontando para uma linha de pontos negros a meio da parede “Conte-os, conte-os!” e sem esperar nem mais um instante, disse, “São 29! Veja, um para cada dia do ciclo lunar. Pense na importância do ritmo da natureza para esses homens, a menstruação, a lua, o culto da fertilidade, só agora é que as mulheres têm a menstruação desregulada, antigamente o ciclo das mulheres estava perfeitamente sincronizado com o magnetismo da lua.” O professor Rappenglueck olhava para os animais na parede com uma óbvia admiração. “Eles tinham uma percepção divina da natureza, não só porque dependiam dela, mas também porque faziam parte dela. Tudo isto era a natureza... vê, repare neste animal também, é um animal migratório, ele ia e vinha com as estações, o lunário perpétuo, todo o mistério dos fenómenos constantes era sagrado!” E continuava... “Como sabe, a função antropológica do símbolo da lua é vastíssima, serve para tudo mas temos sempre que reconstituir o seu sentido místico, isto é, de um corpo transitório no céu que, passando por várias fases, produz a alegoria do eterno retorno da natureza... precisamente, isso mesmo, porque a lua morre e volta a renascer, ela ia e vinha.”

Mas ainda havia outro enigma nestas manchas. Apontei para uma série de pontos que, desalinhados, faziam uma curva para fora da sequência principal. “E estes, o que são?” perguntei.

“Penso que indicam o tempo da lua nova. A curva representa o movimento da ausência da lua: quando o homem primitivo não a via no céu, pressuponha que ia para outro sítio... Mas espere, o senhor também ainda não viu nada, existe aqui algo mais curioso.” E seguimos para dentro da passagem descendo até ao coração da caverna.

Parámos debaixo de uma pintura de um cavalo castanho e de outro quadrúpede escuro. Aí estava também uma fila de pontos pretos, desta vez, eram menos, 13 pontos seguidos de um quadrado.

“Porquê 13?”

Agora o investigador Alemão estava fora de si. Tínhamos chegado ao cerne de Lascaux.

“Não percebe? É metade do ciclo. Um ponto para cada dia, desde a lua cheia até à lua nova, mas desta vez, a lua nova não é um desvio do alinhamento central como na pintura anterior, ela é representada por um quadrado, está a ver? Um quadrado!”

Não percebia onde ele queria chegar.

“Caro Dr. Whitehouse, aquilo que está a ver é a representação mais remota do vazio. A lua nova desaparecia e esse nada que assim se abria no céu, sem mais nem menos, um vazio no vazio do céu, pareceu-lhes um quadrado! A maneira que o homem de Lascaux encontrou para representar o estatuto ontológico desse desaparecimento, do esvaziar até ao inexistente, foi o quadrado, assim como para nós é o zero. A semelhança entre o zero e o quadrado é mais que evidente. Estamos perante o primeiro artefacto declaradamente linguístico da história da humanidade. O que este quadrado demonstra é que a matemática só começa a ser um processo discreto a partir do zero! O quadrado e o ponto são a diferença do vazio e do cheio!”

“Como assim, o professor quer me dizer que vê aqui o princípio da linguagem matemática?”

“Da linguagem formal, descriminada, sim, certamente que sim. Não vê? Cada dia de lua é representado por um ponto, uma unidade, mas a diferença dessa unidade só aparece com o quadrado, uma unidade de vazio, unidade nenhuma: o zero e o um fazem um código. O que estamos a ver é o primeiro código binário da história da humanidade! Até ao momento, os artefactos que encontrámos que fazem referência ao céu apenas contam uma por uma as unidades, agora temos algo mais do que um número, do que uma representação, temos um pictograma da negação da unidade – é linguagem pura, Dr. Whitehouse, isto é a abstracção!”

Definitivamente existe qualquer coisa nas paredes de Lascaux. Mais tarde Rappenglueck mostrou-me um conjunto de constelações na parede da câmara principal do complexo. O padrão pequeno das Plêiades também pode ser visto por cima do ombro de um touro perto da entrada do acesso ao hall principal.

Provavelmente nunca iremos compreender verdadeiramente aquilo que o Homem Cro-Magnon queria dizer com o quadrado, o zero de Rappenglueck. As pinturas de animais e dos caçadores sempre nos dão uma ideia do seu animismo mágico, mas o quadrado, esse permanece um mistério.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, 2010

Adaptação a partir de um artigo de Dr. David Whitehouse, 15.000 year old lunar calendar at Lascaux Caves, France.



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