Um espaço pouco doméstico ◄ Voltar

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Pode afirmar-se à primeira vista que a casa é o tema central, fulcral, na obra de Maria José Cavaco. Uma casa é sempre um espaço fechado e circunscrito dentro do espaço mais vasto da paisagem, um espaço que é o lugar da intimidade, da privacidade e da liberdade. Por contraste com a paisagem, significa e identifica os seus habitantes com uma marca visível que alarga e desenvolve o conceito de corpo próprio. Uma casa é sempre o reflexo de si, independentemente do projecto do arquitecto que a pensou e fez realizar. No trabalho desta artista, a reflexão sobre a construção da casa (a construção do eu) assumiu várias formas que decorriam explicitamente da necessidade de renovação constante que é própria aos artistas mais exigentes. Em muitas dessas formas a disciplina do desenho de projecto foi um suporte para a construção, entendida no sentido literal da palavra, de módulos que pareciam ganhar vida própria, emancipando-se das limitações inerentes a essa disciplina. Tudo se passava como se, enfim libertos da obrigatoriedade da representação codificada – coisa que o projecto de arquitectura é sempre - , cada desenho de casa tomasse vida própria, se elevasse, se multiplicasse, para chegar mesmo a voar. Como o espírito sempre faz, aliás. Nas suas obras mais recentes, Maria José Cavaco continua a levar-nos a reflectir sobre este espaço único que é a casa. Contudo, estas obras possuem a particularidade de não evocar já a forma da casa, mas de interferirem eficazmente com o espaço construído. Na galeria, que é por assim dizer um espaço neutro, perturbam a visibilidade de quem entra, interrompem-na, conseguem negar as expectativas do visitante a partir do momento em que entra no espaço da galeria. Trata-se de peças aparentemente muito simples. Foram feitas a partir de um ou dois elementos (neste último caso a autora chama-lhes dípticos), e prendem-se com esticadores de metal às paredes negando o carácter móvel que a sua pequena escala poderia a princípio dar a entender. Pelos materiais, pela própria forma que poderá recordar a de uma viga, pela impossibilidade de os transportar introduzem a questão de estarmos perante elementos de arquitectura, de esculturas, ou mesmo de pinturas, já que estão sem dúvida presos a uma parede… esta dúvida que se instaura na mente de quem observa é um dos sinais próprios da contemporaneidade, já que hoje as fronteiras entre as antigas disciplinas artísticas se esbatem até mesmo dentro da obra de cada artista. Pintura, desenho, escultura deixaram de se ignorar mutuamente e passaram a coabitar dentro de um mesmo espírito, consoante as exigências que o desenvolvimento da obra própria acarreta. Assim, Maria José Cavaco realiza uma transformação total do espaço galerístico. Onde antes víamos paredes brancas prontas a receber as obras de arte, temos agora um lugar que é instável, que revela os seus próprios limites físicos para imediatamente os ultrapassar. Quase que se poderia dizer que a exposição é sobre o espaço da galeria, ou sobre quem nele circula… porque estas peças condicionam os nossos movimentos, as nossas paragens, os nossos avanços e o nosso modo de ver. Voltamos ao espaço como reflexo do eu. Voltamos ao revelar da intimidade num lugar que é público. E a perceber que estas peças, afinal, tratam de um corpo: o do artista e o do visitante que aqui toma o próprio lugar desse artista.

Luísa Soares de Oliveira

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017