Um lugar na paisagem ◄ Voltar

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Uma definição de paisagem seria a de um espaço territorial abrangido pelo olhar, logo do domínio do visível, mas também a de um sistema onde diferentes factores naturais e culturais interagem em conjunto. Para ter uma paisagem precisamos de um lugar, de um ponto de vista, de um espectador. A paisagem como construção do olhar é um mecanismo de tradução do mundo e interpretação da realidade envolvente.

Places.

Na Inglaterra do Século XVIII a ideia de paisagem foi construída como um cenário perfeito, dando origem a magníficas construções naturais, em particular as desenhadas por "Capability" Brown, arquitecto paisagista cujos jardins tinham como intenção aperfeiçoar a natureza e como modelo as paisagens pastorais italianas da pintura de Claude Lorrain.

Tiago Silva Nunes (Salisbury, 1977) apresenta na série Broken Strangers (Places) um conjunto de retratos e paisagens feitos em 2009, nas ruas de Londres e nos seus arredores. Ao mostrar representações da paisagem inglesa, o artista evoca, além da influência da pintura, a ideia de representação e construção (artificial) que estas paisagens encerram e que a fotografia como nova representação reforça. O autor junta aqui, lado a lado, retrato e paisagem (natural e urbana), montados em dípticos, e usa como referência o quadro Mr. and Mrs. Andrews, de Thomas Gainsborough, c. 1748, onde o pintor inglês retrata um casal inserindo-o na paisagem que os caracteriza, conjugando assim os dois géneros numa mesma composição.

A presente exposição convida-nos a imaginar que tipo de relação pode haver entre as imagens dos dípticos, e como num filme, intuímos uma sequência, corte ou elipse numa narrativa que será completada pelo espectador. Neste processo o tempo da fotografia dilata-se à imagem seguinte, contaminando-se mutuamente e criando uma nova leitura que é complementada com os títulos atribuídos pelo autor.

Strangers.

Na lógica interna de relações entre as várias imagens e contextos, sobrepõem-se diferentes ritmos, mundos e épocas que, apesar de antagónicos, ainda coexistem na Inglaterra de hoje. Por um lado temos imagens de Londres, uma das principais metrópoles contemporâneas, onde milhões de pessoas vivem numa agitação diária, de isolamento e dispersão. Uma sociedade pós-industrial, ainda com marcas do momento (histórico e social) da massificação, da crença no progresso e na máquina. Por outro lado temos imagens mais próximas de um mundo antigo, poético, pastoral e em harmonia com a natureza, onde o tempo é lento e as personagens parecem pairar entre as paisagens bucólicas de inspiração Arcádica e exemplos históricos da arquitectura integrada no countryside britânico.

Broken.

Em todas estas imagens, sentimos uma melancolia latente, uma estranheza e inadequação destas personagens em relação ao lugar onde estão (seja na multidão urbana ou num refúgio campestre), um fenómeno de solidão e introspecção que se desenha no recorte das sombras e numa procura do seu lugar na paisagem.

 

Filipa Valladares

Outubro, 2010

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017