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um outro espelho

O título da exposição é, num mesmo tempo, uma alusão à pintura, enquanto processo de representação, e à metodologia da sua construção. Isabel Madureira Andrade coloca-nos perante imagens pictóricas abstractas, geométricas e potenciadoras de composições simétricas. E é neste acto em potência, que só se verifica pelo tempo que o espectador dedica à sua observação, que a repetição de padrões, matrizes, simetrias incompletas, grelhas diagonais, ou elípticas se confirma. As pinturas inscrevem a presença do desenho, porque são um conjunto de acções físicas e plásticas trabalhadas sob uma paleta cromática em que a sobreposição e duplicação de planos e a expressão das linhas criam zonas de profundidade e de relevo. Esta ideia de espelhamento, de reflexão do outro, é nestas obras uma dialética interna que ocorre nos limites do suporte mas que o ultrapassa enquanto estímulo visual, duração no tempo que cada sujeito intui e reconfiguração do olhar: deste modo, a superfície da pintura absorve-nos para o seu interior, sem resgatar a nossa imagem em prol de uma composição que se refaz e se espelha em si mesma continuamente.

O processo de trabalho da artista incorpora sempre uma imagem preexistente, como um fragmento da memória que pertence ao atelier, aos modelos da sua pesquisa, ao estudo e à liberdade de construir e desconstruir sistemas visuais em que o desenho adquire uma particular importância. Por vezes são imagens de um quotidiano comum, vernáculo, que se vão transformando por um processo de síntese e de austera economia visual em geometrias simples que a sua duplicação vai sedimentando em construções mais complexas, abandonando a referência original para se tornar num processo serial, e aparentemente formal, no interior da obra. Neste processo, a pintura é então uma construção que se inicia como um acto escultórico, um espaço iniciático onde a artista desenha um relevo que estrutura a composição em cordel de algodão sobre a parede. É sobre esta matriz, em relevo, que a tela vai receber a acção do corpo pela frottage, que institui num primeiro momento a estrutura do desenho, ao qual se sucede o assentamento de uma primeira camada de tinta acrílica sobre a tela e, sobre esta, a pintura a óleo, observando uma ordem de resistência dos materiais, e deste modo um prolongamento da acção do corpo da artista, física, mas controlada até ao limite do desaparecimento desse gesto originário que se replica, mas do qual nada sabemos. A pintura reenvia-nos para um registo de outros registos, sendo de novo memória de uma prática que procura incessantemente respostas sobre o acto, a corporalidade no labor da pintura e a reflexão sobre esta prática no encontro com o Outro, que vê e que sente. Neste aspecto, Isabel Madureira Andrade desenvolve o seu trabalho na linhagem de outros artistas com semelhantes preocupações e procedimentos seriais e experimentais, como Ad Reinhardt, Andy Warhol (numa instalação serial de grandes dimensões, muito específica, intitulada “Shadows”), ou ainda Brice Marden, no que se refere ao entendimento e pertinente reflexão deste sobre a sua pintura: “The paintings are made in a highly subjective state within Spartan limitations. Within these strict confines, confines I have painted myself into and intend to explore with no regrets, I try to give the viewer something to which he will react subjectively. I believe these are highly emotional paintings not to be admired for any technical or intellectual reason but to be felt. (1963)[1]”. As pinturas da artista lançam, assim, um repto à história da arte, ao estatuto da imagem enquanto pintura e a uma temporalidade que recoloca o observador na presença destas. Entre formatos diferenciados, seja na dimensão, na composição em tríptico ou individualmente, as pinturas revelam-se como um momento transitório, a ter continuidade para além desta exposição. São talvez um outro espelho que se resolve na universalidade de cada sujeito, espelhadanos matizes e na fluidez da composição.


João Silvério
Setembro 2021

 
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[1]Brice Marden, “Statements, Notes and Interviews (1963-81)”, Theories and Documents of Contemporary Art, A Sourcebook of Artists’ Writings, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 1996, p. 138.





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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017