Um pintor de Veneza ◄ Voltar

Dir-se-ia que estamos perante um confronto desmedido que é o de Urbano com Veneza; Veneza lugar, Veneza cidade, Veneza cor, Veneza pintura e pintores, tantos, tão grandes que o desafio nos aparece como um risco suicidário, e, no entanto, aqui nos encontramos perante os papeis, as telas, os cadernos de um pintor português. Neste território as comparações são inevitáveis com Veneza e os seus pintores. Para tal propósito escolho dois: O primeiro que nasceu com os pés dentro de água, é Francesco Guardi (Veneza 1712-Veneza 1792), não o pintor do brilho festivo que podemos conhecer no Museu Gulbenkian em Lisboa, mas o secreto pintor da “laguna”, toda ela matéria de cinza, onde água e céu e nevoeiro, um barco e o seu barqueiro apenas são zonas mais ou menos densas da mesma fluida matéria (Museu Poldi Pezoli de Milão). O segundo que nasceu numa ilha grande é Turner (Londres 1775-Londres 1851), pintor do indistinto como ele próprio se classificou, é um artista que veio de fora para ver Veneza como transparência, bruma e fogo solar também. Urbano nasceu também com os pés dentro de água, nasceu também numa ilha dos Açores, S. Miguel na fronteira da água e da terra, no lugar incerto da lama que proporciona conhecimento do fogo também. A experiência que este pintor tem de Veneza não é episódica nem turística, é vivida e material, os cadernos de esboços que leva de Portugal já viajam preparados não só com a cor mas com a matéria dos muros de Veneza, muros trabalhados pelo tempo e pela água tal como a pintura de Urbano em plena sintonia com a erosão, na fronteira entre os elementos. Quando a matéria fica pronta podem nela inscrever-se figuras, cores, palavras, rostos também em dois registos diferentes: O registo das gentes, sempre anónimas, mesmo quando têm rosto, ou são mesmo apenas um rosto enorme explodindo em cor, figuras memória e presença de um Carnaval nostálgico e melancólico onde a festa, todo ela, está contida nas flores de um vestido ou nas rosetas de um rosto de menina e no olhar mais espantado que alegre de um jovem arlequim. O registo das paisagens que vão do mais evidente e óbvio, o Palácio dos Doges ou o Rialto, ao completamente anónimo lá onde a omnipresença da água é mais forte pois a percebemos e sentimos enquanto origem e destino, princípio e fim daqueles muros e ilhas que se juntaram no espaço e no tempo para fazer um milagre: Veneza, a cidade! Assim, entre cenários vazios e actores sem palco, se constrói este “Tempo Suspenso”, tal o título proustiano dado pelo pintor à sua exposição. Suspenso não das “pedras de Veneza”, mas da água que as sustenta e as dissolve, as submerge, do tempo que, obra a obra, quadro a quadro, muro a muro, os artistas e os homens de Veneza souberam transformar num lugar único de matéria e memória, pintura e Ser. Surpreendendo-nos, surpreendendo-se, como sempre o fez pelo simples facto de estar neste mundo, Urbano é, aqui e agora, um pintor de Veneza. Que tal título lhe baste! José Luis Porfírio Texto integral do catálogo das exposições «O tempo suspenso», editado pela Galeria 111, em Novembro de 2004.


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017