Um silêncio assim azul ◄ Voltar

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“Desenhar o que é? Como se chega lá? É o ato de abrir passagem através de uma parede de ferro invisível que parece colocada entre o que sentimos e o que podemos. Como deve atravessar-se tal parede, pois de nada serve bater-lhe forte, tal parede deve ser minada e atravessada com uma lima, lentamente e com paciência na minha opinião.”
– Artaud
 
Como produzir uma paisagem com o mínimo de sinais mantendo a sua identidade?
Quando iniciei este projeto, este era o meu desafio. Os números representavam apenas as coordenadas de uma ilha (S. Jorge), no meio do oceano, onde teria uma visão privilegiada sobre a ilha do Pico, com uma massa de água entre elas garantindo a distanciação necessária.
No verão de 2013, já em S. Jorge, a lenta transformação destas coordenadas em imagens gráficas e fotográficas, permitiram-me um trabalho posterior de memória sobre elas. A relação com a ilha foi imediata, criadora de uma energia que não posso explicar por palavras mas que me fez compreender a sua relação com o oceano, com o canal e com a ilha do Pico. Essa relação forçou-me a ceder à orgia dos sentidos que me era oferecida. Ler os volumes das rochas negras que se contorciam até entrarem no mar e continuavam para dentro dele passou a ser um prazer. Os inúmeros passeios de horas, em subidas e descidas pelas encostas, permitiram sentir fisicamente como a ilha se formou a partir da linha de água. Estas caminhadas fizeram-me também perceber como os pontos de vista sobre a Ilha do Pico se iam modificando. A minha noção do enorme volume do Pico foi crescendo através de registos gráficos no diário de viagem e nos diários gráficos com experiências já de abstrações da paisagem.
Na oficina, já longe das ilhas, comecei o trabalho da memória, mais racional, mais sintético, com o objetivo de concluir o projeto, procurando respostas à pergunta inicial que me tinha posto. A produção da série de desenhos em aguarela sobre papel colorido surge do sentir o volume do Pico e o volume da água do canal em constante movimento, mesmo quando a luz era já escassa. Durante os vinte e um dias que durou esta aventura, nunca vi o Pico completamente descoberto, por isso, passei a adivinhar-lhe os contornos a partir dos movimentos que as massas de nuvens faziam ao enrolarem-se à sua volta. Os retângulos horizontais e estreitos criam a expectativa de visualizar uma paisagem; com eles trabalhei a tinta-da-china azul até ao limite do reconhecimento. Foi este mesmo trabalho que fiz com o “pequeno oceano privado”. Neste caso parti da questão de representar o oceano como uma massa de água em movimento constante. A representação a que cheguei tem fundamento em grafismos ancestrais que representam água. Percebi, durante a execução dos desenhos, que a mão direita estava ensinada a executar este movimento desde a aprendizagem da escrita e não conseguia a variabilidade que pretendia. Troquei para a mão esquerda, aumentei o tamanho do pincel e acrescentei pinceladas de água que eram anteriores à de tinta-da-china. Todos estes fatores juntos criaram, enfim, um grau de imprevisibilidade que favorecia o aparecimento de imagens que em conjunto faziam todo o sentido. O trabalho dos gravadores Japoneses do período Edo, Hokusai e Hiroshige sobre a representação da paisagem sempre me fascinou. O estudo aturado dos campos visuais e das aguadas por eles utilizadas nos cadernos de viagem permitiram chegar a soluções pouco habituais, mas eficazes.
O resultado deste trabalho é aqui mostrado para ser agora desfrutado outra vez com os sentidos.
 
Dulce Nunes
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017