Um sistema de relações. ◄ Voltar

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A presente exposição de João Queiroz teve como ponto de partida uma residência artística realizada na ilha de S. Miguel a convite da Galeria Fonseca Macedo.
Na prática do trabalho do autor é recorrente a sua deslocação, ou deriva, a diversos locais onde efectua registos, ou apontamentos, sob a forma de desenhos ou aguarelas de pequeno formato. Estas anotações afastam-se da representação paisagística como forma de nos devolver um lugar e nos assegurar o correlato da memória, no sentido em que são elementos auxiliares da experiência visual e física do autor, que virão a constituir-se como testemunhos de referência para as obras a realizar no atelier.
O processo de trabalho de João Queiroz põe-se perante nós como um paradoxo na tradição da representação da paisagem. A sua relação com a natureza revela uma consciência do mundo como um corpo complexo e mutável que requer uma atenção específica a diversas significações de valor como a escala, a cor, a densidade, a luz, ou o vento. O que interessa ao autor é o movimento aparentemente visível desse corpus, do qual vamos conhecendo a sucessão de diversas tonalidades da pele, sob a qual pressentimos uma permanente transformação.
Numa entrevista com Doris von Dratten (Kunstforum bd 151, 2000) o autor refere-se a esta relação com a paisagem partindo da fisicalidade da sua presença sensível: "A minha memória da paisagem não é figurativa mas tudo o que o corpo sente perante a paisagem traduz-se em gestos."
Esta “tradução” da sensação em gesto (em acção), virá a ocorrer a posteriori no trabalho de atelier, em que o pintor vai significando as diferentes escalas de valores que observou no local, as quais produzem através da pintura densidades e tratamentos formais e cromáticos diferenciados. O desenho da composição expressa uma fisicalidade activada pelo movimento da mão, que tenta desprender-se da memória visual para recuperar a experiência da sensação do próprio corpo no lugar de origem.
A observação da natureza como paisagem é assim transmissível através de uma grelha que integra e religa as partes de uma totalidade que correspondem a diferentes momentos e lugares da sua experiência de campo. Assim, as obras presentes nesta exposição articulam-se como um sistema de relações que o autor vai construindo no interior da folha como se esta fosse em si mesma dotada de profundidade.
João Queiroz trabalha a matéria no sentido de extrair a densidade e a espessura que a pintura detém, abrindo e modulando a espacialidade das obras até criar um campo visual onde ocorrem uma série de acontecimentos: montes, árvores, céu, espaço ou acumulação entre os objectos pintados – por vezes indecifráveis –, grandes massas de pedra ou caminhos.
As aguarelas que vemos nesta exposição são pintadas com uma densidade e proficiência que se aproximam, aparentemente, de pinturas a óleo sobre papel. Este é um dos aspectos que tornam singular a produção plástica de João Queiroz, em que o trabalho oficinal do pintor persegue um registo autónomo em cada pintura ou desenho. Esta autonomia pertence ao domínio da sua reflexão interior, onde ocorrem as ligações necessárias que nos confrontam com o nosso vocabulário visual habilmente treinado. Assim, é a presença e a experiência da pintura que nos pode surpreender. Basta parar, e olhar.

João Silvério

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017