UMA SÁBIA DISTÂNCIA ◄ Voltar

“(…) mas quem me vir, vê-me sentada à mesa em face da janela, bloqueada de azul” Maria Gabriela Llansol, Um Beijo Dado Mais Tarde, ed. Rolim, 1991, p.80 À volta da Mesa-Paisagem de Ana Vieira não há nenhuma cadeira. Em torno das suas mesas-paisagem de 1973 [1] nunca ninguém se sentou porque elas são cenografia ou construção e não espaço real da vida de uma casa; porque elas propõem o vislumbre da viagem e da imensidão territorial (mar, deserto, barco, comboio) em vez da simples intimidade; porque a cadeira, objecto tão banal do nosso quotidiano e tão presente no imaginário artístico do século XX, para além de nos imobilizar, diminui a distância do ponto de vista pretendido. O lugar da cadeira será, nesta exposição, longe da mesa. A mesa terá sido animada por um delírio objectual que lhe atribui o destino de uma pintura, de uma imagem ou de um minúsculo palco ainda deserto. As cadeiras terão sido submetidas à mesma condição representativa e espalmadas contra a parede por uma força centrífuga que as retirou à sua função, localização, volume e sujeição gravitacional correntes. Realizadas mais de trinta anos depois da mesa, as cadeiras em papel amassado que expôs na Fundação Carmona e Costa em 2007 e que agora trouxe a esta exposição são a singular afirmação de um subentendido neste conjunto de trabalhos: a convocação de um observador curioso, instabilizado, vagamente diletante e voyeur pressupõe a sua mobilidade (preterir a cadeira) e uma sábia distância. Talvez a mesma distância que a roupa dos protagonistas do célebre Déjeuner sur l’herbe, de Manet estabelece com a nudez da sua companhia feminina. São eles quem observa, dispõe e usufrui. Na curiosa apropriação que fez desse trabalho, em 1977, Ana Vieira projectava uma imagem da obra no chão e sobre ela espalhava os objectos necessários a um piquenique, transferindo para o plano térreo a visualização do que foi pintura tradicional proposta à altura dos olhos e suspensa na parede e tornando esses objectos duplos reais do universo da representação pictórica. Na proposta de Ana Vieira, as três personagens de Manet, cujo lugar na pintura era o de sentadas no chão (excluindo, portanto, a cadeira), passam a revestimento literal desse mesmo chão que as inclina e atrai, levando ao limite o cumprimento da sua natureza espectral. Os momentos da nossa distância ou aproximação em relação às coisas e sobretudo em relação à arte organizam-se, por isso, em diferentes patamares, que a artista consegue sugerir eficazmente: oscilamos entre o fascínio que as duas e as três dimensões constante e alternadamente nos propõem com uma intensidade equiparável à que nos desloca da vida para a arte e o inverso; habitamos um espaço vertical tão absorvido pela sua direcção ascendente quanto pela sua possibilidade descendente e podemos ser emocionalmente mobilizados pela escala, pelo peso, pela direcção inscritos em cada composição visual: somos igualmente sensíveis à horizontalidade de uma distância, de uma queda ou de uma extensão; requeremos natureza e liberdade, janelas e portas abertas, mas também perímetros e casas, fronteiras e lugares próprios. Nas obras recortadas em madeira que realizou no final dos anos 60, Ana Vieira trabalha já todas estas questões. A Senhora M.M.T.S. sintetiza o princípio da ausência (do vazio aberto no suporte) como matéria das figuras, a par de outras formas de baixo e alto-relevo; evoca o quadro e a moldura, a pintura e a escultura, a imagem e o objecto, o recorte e o ressalto, o desenho frontal e o perfil, o vazio e o preenchimento, o azul (cor da fluidez para Ana Vieira) do mar e do céu e o castanho de um território, a casa e o exterior, a relíquia e a pobreza, o humano e a sua sombra, o individual e o anónimo. O branco, tão importante nesta obra, será sempre, na arte, a cor da folha, da tela ou do molde por preencher. Significa esse momento em que tudo é potencial por actualizar. Mantê-lo tão dominante na obra é afirmar essa insipiência, esse eterno recomeço. A caixa acrílica branca que preencheu de gesso em 2005 decalcando nele uma jarra em negativo expõe as suas duas metades abertas como se da revelação de um segredo se tratasse: o que é uno é também duplo; do vazio nasce o volume, que é apenas uma das etapas no acontecimento das formas, o desenho é uma ideia que pode ou não vir a ser objecto; os tesouros guardam-se fechados, mas devem poder ser abertos; as caixas, as mesas, as cadeiras, as obras são à nossa escala, mas a invenção, a elaboração simbólica e a representação ou apropriação fantasmáticas habitam outros espaços-tempo. Gabriela Llansol escreveu (retomando a frase em epígrafe neste texto e alargando um pouco a citação): “mas quem me vir, vê-me sentada à mesa em face da janela, bloqueada de azul. A janela que tem atrás de si o pão servido sobre o prato, imagem de uma folha caída de uma árvore”. Em curiosa ressonância com este excerto literário, a janela de Ana Vieira pode ser vista como o limiar poético e por vezes literal aquém e além do qual esta exposição pode ser inscrita. Sobre a mesa, sobre a parede ou sobre o chão de um prado, os sinais de uma passagem transfiguradora ter-nos-ão ajudado a transcender qualquer ideia comum de habitabilidade. Lisboa, 27 de Maio de 2009, Leonor Nazaré   [1] Dois trabalhos de instalação a que chamou Mesa-Paisagem, ambos datados de 1973 "


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017