Esse cinzento é água e ar

Alice Albergaria Borges

20 Outubro | 30 Dezembro, 2022

Press release

Esse cinzento é água e ar

Esse cinzento é água e ar é a primeira exposição individual de Alice Albergaria Borges na Galeria Fonseca Macedo. A artista e designer dedica-se à investigação, exploração e preservação de técnicas têxteis tradicionais.

Alice é uma guardiã de conhecimento. Visitar o seu atelier nas Caldas da Rainha é uma incursão pelas políticas da matéria e da cor, bem como dos seus usos e simbologias. É falar sobre tinturaria, receitas, intuição, ancestralidade, botânica e ecologia, e questionar onde acaba a mão e começa a tecnologia. É entender o têxtil como um processo de escrita, e o seu papel na criação de códigos e identidades individuais e coletivas. Em última instância, é pensar como os têxteis são uma forma crítica de revelar outras narrativas, realidades e experiências que os cânones da história frequentemente ignoram e apagam.

Enquanto bebíamos um chá de Ruiva-dos-Tintureiros (utilizada para tingir vermelhos), falávamos de como os têxteis foram umdos primeiros abrigos do corpo e da humanidade e de como a sua evolução se renovou em formas, usos e aplicações. Mas também em como desencadeou relações de exploração que perpetuam um processo extrativo que ameaça territórios e o equilíbrio dos seus ecossistemas. Para Alice, utilizar materiais naturais e operar de forma manual é uma estratégia para contrariar esses sistemas e valorizar outros contextos de produção. Interessa-lhe a materialidade das fibras e as potencialidades do tear, num mundo que se debate por ecologias alternativas do tempo e do fazer.

Estas preocupações estendem-se à forma como estuda e explora a cor nas suas peças, através de processos de tinturaria naturais. Até há 200 anos, toda a cor tinha uma origem natural, o que implicava um conhecimento técnico, científico e especializado de pigmentos e corantes, bem como de processos de cultivo, transformação e extração de várias espécies e matérias. Por todo o mundo, a cor assume valores simbólicos, sociais e económicos distintos e até a sua nomenclatura (ou ausência dela) reflete a sua importância, perceção e lugar político. O processo colonial e a industrialização potenciaram um pensamento cultural dominante com tendência para uma “cromofobia”1, ou seja, o medo de corrupção ou desvio através da cor. Isso é evidente nas várias tentativas de expurgar a cor2, pela sua associação a determinados corpos e grupos – o feminino, o queer, o indígena, o infantil, o vulgar ou o patológico – ou por se associar ao domínio do superficial, desnecessário ou cosmético.

Alice procura contrariar estes processos de policiamento e exclusão cromática, para estabelecer um espaço de ressignificação da cor, em todo o seu espectro, ao potenciar a sua relação intrínseca com o têxtil e a tecelagem, sem preconceitos ou fobias impostas.

Durante a visita, fios cinzentos tingiam ao lume, com misturas de pau-campeche e folhas de eucalipto com sulfato de ferro. Alice dizia que os “cinzentos são a mistura de todas as cores”. A tinturaria é um processo alquímico que existe entre receitas ancestrais, conhecimentos botânicos e químicos, a intuição e o ensaio. Cada cor exige diferentes ingredientes na sua produção e o resultado depende da qualidade dos mesmos, dos momentos da apanha, da fermentação, e da fibra que está a ser tingida. Esta imprevisibilidade (e acaso) permite obter, às vezes com o mesmo processo, cores com diferentes tonalidades, vibrações e intensidades.

É a partir destas variações (e irregularidades) que Alice constrói as suas coleções de cores, reorganizando-as a partir da estrutura do tear, para desenhar padrões, texturas, transparências e opacidades. São pinturas em fios – centenas deles – definidos pelas sequências das teias e das tramas. A exposição apresenta-nos estas coleções, através de sete tecelagens pictóricas3 que orquestram a cor, suspensas no espaço, como numa teia de arranha, livre e operativa, que contrasta com a rigidez ortogonal do tear. Cada plano cromático – azul, roxo, vermelho, amarelo, verde, cinzento e castanho – existe na sua relação com o outro4, sublinhando a sua subjetividade e ambiguidade, num jogo de composição e sobreposição de ritmos e limites. Esse cinzento é água e ar é um lugar em continuidade e que não se fixa, onde as coisas se misturam para assumir e reconhecer múltiplas formas e posições.

No final do encontro, Alice mostrou um conjunto de pinturas que fez utilizando uma espécie de gouaches que ela própria conseguiu produzir, extraindo os pigmentos dos líquidos corantes que usa para tingir os fios. É esticar o limite da matéria e das suas aplicações e existências. Afinal, ela é muito mais do que uma guardiã.

Jesse James

Curadoria

 

1 David Batchelor – Chromophobia; 2 William Calvo-Quirós alerta para uma “estética da colonialidade”, isto é, para os processos pelos quais o Ocidente recorre a conceitos e teoria estética para validar a opressão e a segregação étnica e racial por meio de discursos em torno do gosto, da metodologia da arte e do uso da cor. Calvo-Quirós é Professor e investigador sobre conexões e interseções entre Design, Estética e Espaço. 3 “Pictorial Weavings” é um termo cunhado pela artista Anni Albers; 4 Josef Albers – Interaction of Color.

Obras disponíveis